segunda-feira, 27 de março de 2017

Cainho



Cainho

Eu sinto falta das estrelas
compassadas, no meu caminho,
as pontilhadas na janela.

O brilho rítmico em alinho,
dos postes presos na  rua
de meu destino  em desalinho.

Eu sinto falta e continua
o ensejo ausente de breu!
O asfalto em mim que me insinua...

O brilho em frenesi tão meu...
Anseia o beijo da rua a estrada.
Se anseia a alforria que pereceu...

Mas  sinto a falta que alastrada
conduz na ânsia a culpa e a fome
de encoleirada dor claustrada.

A dor de um cão! Vida que some
na raiva, os dentes cá se estorcem
e rasgam a tez de quem os dome!

Sentir as luzes que distorcem
a vida prenha por perdê la
em sonhos nômades  que sorvem-me!
Eu sinto falta das estrelas!

Soneto N.º IV - Renata Pallottini



 Soneto N.º IV

Se há dias de alforria, é pelo mar
que a gente vive os dias de alforria.
Nada é mais  livre do que navegar;
um barco é como  um pássaro em franquia.

Roda a roda do leme, mas as rotas
são tantas, pelo mar, em sul e norte,
quantas riscam no céu as gaivotas.
Ah, eu já resolvi da minha sorte:

pulo, num dia desses, pra "Doçura",
solto as amarras, deixo do que  era,
e  me parto pra terra da aventura

-- a que eu nunca hei de ver e que me espera --,
e fico a navegar por toda  a vida,
que água do mar tem gosto de partida.

Renata Pallottini