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quarta-feira, 8 de maio de 2024

Teimosia


Teimosia

Do cristianismo eu cá gosto
 da dor e do sofrimento 
sentir no tormento o alento 
as lágrimas no meu rosto, 
sê mais vivo quando morto
 na tempestade o conforto 
de diluir decomposto...

Do cristianismo cá esmero 
minha culpa sempiterna
 essa melancolia eterna
qu,ao ser misero impero 
estendo a mão e beijo as chagas,
das castanhas mais amargas
 mais amargas eu as quero...

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Triolé - Arquétipo


Eu vi a mim mesmo, bem ali
com outro tu, todos iguais.
Contigo conversava sem ti!
Pois vi a mim mesmo bem ali
eu vi sim, juro cá que eu vi
velhos temas, rostos não mais
pois vi a mim mesmo bem alí
com outro tu, todos iguais.

Padrões

Eu vi padrões nas janelas,
que repetindo desbrotam
noutros temas, velhas telas
eu vi padrões nas janelas
novas telas, velhos temas,
roteiros nunca desbotam
eu vi padrões nas janelas
que repetindo desbrotam.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Tema: O vento varre a tarde inteira.


Triolé I

O sal do mar conserva e o vento
o vento varre a tarde inteira,
o sal do mar que parte ao alento
o sal do mar conserva o vento
e versa o ar no cal do tempo,
desfaz e traz nossa poeira.
O sal do mar conserva, e o vento?
Vento nos varre a tarde inteira.



Triolé II

O vento varre a tarde inteira
o pátio dentro dessa escola,
redemoinhos de sujeira
o vento varre a tarde inteira
o que restou, nossa poeira
memória nossa nos assola
e o vento varre a tarde inteira
o pátio dentro dessa escola.



Triolé III

Regurgita o mar o sal na areia,
e o que desenterra exterioriza
retornando outro, o que arpeia
regurgita o mar, o sal na areia
o vento o varre a tarde inteira
corrói, digere, pereniza,
regurgita. E o mar, o sal na areia
o que desenterra exterioriza.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Oitava-Retorno




Os velhos temas repetem,
tudo reincide em retorno,
as cores vertem de antanho
memórias fincam no entorno
marcando mapas, são pontos
e a infância tece o contorno
e os velhos temas rementem
ao  que reincide um retorno.

Feliz 2018

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Acalanto



Feito algum barco parece em deriva,
vaga por mares perdidos
segue embalando num verso esquecido
caso a criança  está viva.

Quando acordamos o mundo aprodece
emerge um mundo que insano
pelo balanço do berço parece
sonhos reais, não o profano.

Sob algum canto emudece seu pranto,
canta  o acalanto no ouvido.
Raia do seu mundo no berço aquecido,
tudo se encerra no manto.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Trovas



Os outros brilham na rua,
suas vidas vertem sentido
pois são o que são para ser
no que é para ter sido.
ºººººº
Por que o quê possui sentido
se desmonta no final?
Se tem sentido é falso
e assim nada é real?

segunda-feira, 27 de março de 2017

Cainho



Cainho

Eu sinto falta das estrelas
compassadas, no meu caminho,
as pontilhadas na janela.

O brilho rítmico em alinho,
dos postes presos na  rua
de meu destino  em desalinho.

Eu sinto falta e continua
o ensejo ausente de breu!
O asfalto em mim que me insinua...

O brilho em frenesi tão meu...
Anseia o beijo da rua a estrada.
Se anseia a alforria que pereceu...

Mas  sinto a falta que alastrada
conduz na ânsia a culpa e a fome
de encoleirada dor claustrada.

A dor de um cão! Vida que some
na raiva, os dentes cá se estorcem
e rasgam a tez de quem os dome!

Sentir as luzes que distorcem
a vida prenha por perdê la
em sonhos nômades  que sorvem-me!
Eu sinto falta das estrelas!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Tempo Perdido


Tempo  Perdido

Quando tudo está perdido
vendo a gente virar pó...
Estátuas de sal na praia
história sem fim de nós.

A gente tem de estar só.
Sentado no meio desta peça
enquanto apontam pra mim
fuzis, na minha cabeça.

O tempo morre comigo
de mãos dadas. Caminhando
os outros são tão legais.
Ninguém está se matando.

O tempo pula comigo
de mãos dadas. Do penhasco
as fadas estão me olhando,
meus atos causam lhe asco.

E as fadas, seres assim
Não sei se existem ou não.
nem sei se odeiam a mim,
Se sou louco com razão...

O tempo morre comigo
de mãos dadas, sonhando
Com tudo que sinto falta . ..
E é o que está me matando.

Sonhando aquilo que falta
quando tudo está vencido.
E a gente acorda chorando
ciente do tempo perdido.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Ossos Retorcidos





Ossos retorcidos,
num fractal como um broto,
de uma semente infeliz.
Como uma muda esquecida
entre pedregulhos em um planeta vazio.

Cresce confrontando os astros,
formas perfeitas. É, em gênese
dor consciente e ciente de si.

Entre esferas perfeitas o grotesco acode
 o coro das almas, seus anseios
a aceitação de um vaso quebrado.
A necessidade de encaixe em um mosaico de cacos de vidro.

O grotesco acode os anseios das almas,
distante das esferas, do inquebrantável
silêncio do eterno.
O grotesco, ossos retorcidos
cresce na súplica do desespero
como uma prece, uma chance
de Caos acordar o Éros.

Acho que estou voltando a escrever, eu  fiz um soneto no  ônibus esse dia, mas esqueci de salvar ele...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Tema e variação


Tema e variação

Um cavaleiro de armadura
vai ressurgir no meu quintal,
em um momento de candura
retornaremos ao normal.

Um cavaleiro de armadura,
vai ressurgir no meu jardim
vem carregado de amargura
é  um mensageiro de seu  fim.

Um cavaleiro de armadura,
vai ressurgir com a lua cheia
leva promessas de ventura
muros levanta e o sol receia.

Um cavaleiro de armadura,
vai ressurgir na lua minguante
com suas cantigas desventuras
tentar crescer por um instante.

Um cavaleiro de armadura
vai ressurgir com a lua nova,
leva promessas prematuras
mortas raízes em suas covas.

Um cavaleiro na amargura,
vai ressurgir na lua crescente
vai renascer da sepultura
vai se vencer, ser ascendente. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Tema e Variação


Tema e Variação

 Um gesto impresso
em toque
 impele
 pele contra pele.

 -||- 

Um gesto tátil
 expresso em toque impele
 impressão
 pele contra pele.

 -||- 

Um gesto expresso
 em toque impele
imprensa
 pele contra pele.

-||- 

Um gesto
 pele contra pele
 momento tátil
brincadeira expressa.

-||- 

Brincadeira expressa
em gesto e momento:
o faz-se desta peça
pele contra pele.

sábado, 19 de abril de 2014

Ler quando souber a hora.




Ler quando souber a hora.


No jardim as feras se libertam,
em máscaras feitas de mármore branco,
liberdade, pássaros na gaiola
cantam luz na sombra e na agonia.

Ela em cabelos de cordas, serpentes,
redes de pesca e barcos naufragando. Pousa deitada nas pedras nuas nua em uma caverna.
É um âmago, um elo com as mais anciãs verdades presentes no mundo dos homens.
Nos mais escuros abismos dos oceanos sereias cantam os mares azuis e oceanos cravejados por mim...
Era uma rainha sedutora.
Ulisses, o que à na lenda de Ulisses?

Verdade conciliadora em grades de ferro bordadas (aquelas faróis, três irmãs e o segredo amargo dos ciclos da lua e do inferno) de cadeados abrirão amargos caminhos (segredos trancados frangalhos mutilados estraçalhados por farpas de ferro) para a marcada verdade do início dos tempos modernos, para a inércia dos tempos para os turbilhões do mar e da tempestade. Há um erro nesse poema.

08/02/2011

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Frase “Não foi o leitor que abandonou a poesia. Foi o poeta que abandonou o leitor”


Por que não se lê poesia?

Não é à toa que foi na melhor MPB que os jovens continuaram procurando versos que não encontram na chamada poesia contemporânea.

por Fabrício Carpinejar

Já pensou em escrever um romance?” A pergunta, em tom levemente depreciativo, é despejada sobre a cabeça do poeta a cada novo livro. A resposta negativa gera no in....terlocutor do poeta uma tosse ou um constrangido balançar de rosto – ainda mais porque aquele que perguntou provavelmente nem leu a obra em questão. O engasgo soa algo como encontrar uma amiga, olhar para seu ventre, cumprimentar pelo bebê que irá nascer e receber de troco a afirmação seca, cruel: não, eu não estou grávida.
Há o julgamento informal de que poesia é perda de tempo. Tendo lançado até agora dois livros, não cheguei ao ponto de receber os pêsames, mas não falta muito para isso. Até porque o poeta é identificado como um defunto comercial e nunca será de bom tom dar as condolências ao próprio falecido. Mas, afinal, por que todo esse preconceito quando o assunto é poesia?
A resposta mais fácil estaria na baixíssima taxa de compra de livros no Brasil. O índice é de 0,8 livro não-didático por habitante/ano. Como ninguém leva um livro pela metade, não se chega a adquirir um volume inteiro, ficando longe de países como os Estados Unidos (sete livros por habitante/ano). Sobrariam para os versos as migalhas. O Prêmio Jabuti de Literatura, o mais importante do país, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, seria outra prova desse desinteresse. Nesse ano, apenas 63 livros foram inscritos na categoria poesia, 40 a menos dos 103 inscritos no ano passado. Nas livrarias, a seção de poesia dorme em algum canto obscuro, longe do alcance da visão dos leitores.
Todos esses dados seriam suficientes para indicar que o brasileiro não gosta de poesia. Será? O curioso é que boa parte das pessoas costuma iniciar-se na literatura por meio da poesia, seja em cartas, seja em cantadas extra-literárias para conquistar alguém. Mas o adolescente que se empenha em comover seu par é o mesmo que acha difícil a interpretação poética. Esse é o paradoxo: os poemas são considerados fáceis de fazer e complicados de ler. Como isso? Para muitos jovens, ainda vigora uma idéia romântica de criação. Poesia é pura inspiração, acessório para colocar em cabeçalhos de agenda. Faz parte do kit básico de sedução, ao lado das flores e do ursinho de pelúcia dado para a namorada.
Esse adolescente é o mesmo que tem horror à obrigatoriedade de ler os chamados poetas clássicos nas aulas de literatura – tudo para conseguir passar no vestibular. Aprende datas, o nome dos movimentos, mas não se inspira na leitura dos autores. O conjunto é resumido nos esquemas das escolas literárias e o texto em si termina relegado a um papel secundário. Toda trajetória de um escritor é abreviada a uma fria questão de vestibular. Sobretudo, o sujeito aprende que todos os bons poetas fazem parte do passado, culminando com a geração modernista de 1922 e uns poucos da primeira metade do século XX. Você já percebeu que não há praticamente nenhum poeta consagrado desde então, conhecido e lido como Drummond ou João Cabral?
Por que poesia virou mercadoria que todo mundo tem para vender mas ninguém quer comprar? Como foi que os leitores perderam o interesse pela poesia? Desconfio que a resposta esteja no fato de que os próprios poetas tenham perdido o interesse pelos leitores. A poesia como um exercício de linguagem, fria, escrita para agradar os professores de semiótica, torna-a cada vez mais distante do interesse dos leitores. Enquanto a poesia narrava uma história, era capaz de ser atraente, compreensível e proporcionar entretenimento, os poetas eram populares. E isso não era sinônimo de sentimentalismo barato, como o ato de despejar emoções no papel sem uma preocupação com a estrutura. O poeta era o equivalente a um músico, que tocava palavras como cordas de um violão.
Não é à toa que foi na melhor MPB que os jovens continuaram procurando versos que não encontram na chamada poesia contemporânea. Fora daí, ela passou a ser encarada de duas formas: a sentimentalista, à base de trocadilhos fracos, ou a acadêmica, difícil, culta, que atende a interesses universitários e não chega aos ouvidos da gente. Para sair desse impasse, talvez seja a hora de os poetas voltarem a contar histórias. É preciso fugir da armadilha que impõe que a boa poesia seja um exercício de linguagem e que qualquer poeta disposto a narrar a vida das pessoas seja etiquetado como menor. Não foi o público de poesia que desapareceu, como querem alguns teóricos da literatura. O que desapareceu foi a poesia em contato com a vida das pessoas. Talvez ela esteja adormecida, esperando que alguém traga de volta o simples prazer de ler um poema.

Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Terceira Sede e Um Terno de Pássaros ao Sul, ambos pela editora Escrituras.

Os artigos publicados nesta seção não traduzem necessariamente a opinião da Super.

Frase

“Não foi o leitor que abandonou a poesia. Foi o poeta que abandonou o leitor”

Sobre poesia




Isso foi para um grupo de poesia no facebook. Palavreado e umas discussões que tavam tendo lá. Mas enfim isso expõe um pouco a minha visão sobre as discussões sobre o que se tem escrito ultimamente. Temos muita coisa boa mas temos enxurrada de coisas ruins, e uma idéia de poesia que na minha opinião é mais desconhecimento do que é poesia do que qualquer outra coisa.



Vamos lá, como ta todo mundo dando pitaco eu vou também dar o meu.

1 - Tudo bem escrever poesia e ela não ser boa. Tem de mostrar mesmo, se não tem pessoas que vão ler então na minha opinião não vale a pena escrever. Poesia é comunicação. Ninguém nasce escrevendo que nem um Cruz e Sousa ou um Leminski. Temos o direito de escrever poesias ruins se nos comprometermos em melhorar, aprender.
2 - Pra escrever poesia tem também de ler poesia, e não existe uma estética ruim ou estilo ruim, o que existe são poemas e poesias sem algo mais, sem originalidade. Podes ser o campeão dos trocadilhos ou das rimas mas isso não te faz um poeta.
3 - Todo poema tem o dever e o prazer de ser criticado. Não é algo sublime e subjetivo que o torna intocável, bem pelo contrário, e as criticas tem o dever de serem construtivas, apresentar os lados bons e os aspectos ruins.
4 - Qualquer coisa não é arte, se fosse assim então anularíamos os estudo, a prática e a inspiração.
5 - Eu não vejo diferença de valor entre um poema concreto e um poema de cordel, cada qual é bom em sua maneira.
6 - Apenas causar asco ou choque qualquer um faz, mas comunicar apenas isso além de batido é um tanto quanto de mal gosto. Se não feito de forma adequada parece apenas uma pessoa preguiçosa querendo seguir um caminho fácil. Tanto o grotesco quanto o agradável possuem valor, e o que vai definir é como se trabalhar com eles.
7 - Grande parte das poesias aqui parecem gente chutando cachorro morto. Tentam ser marginais mas não são muito diferentes de um "punk" que vive no bob's. Não quebram nada, não questionam nada e não falam nada além do óbvio.
8 - Antes de escrever temos de ler poesia, outras autores, conhecer sobre. Da marginal até a parnasiana, sem juízo de valor, quanto mais diversidade melhor.
9 - Antes de definirem o que é poesia, para não cair num senso comum que não é nada mais do que encher linguiça, vale a pena ler o que já fora escrito sobre poesia. O que é poesia, de Fernando Paixão é um bom começo, mas vale a pena considerar também a poesia popular, repentistas, cordel, etc.
10 - Falar e falar e não dizer nada, se colocar ou ficar escrevendo sobre escrever poesia éo que mais tem. Tá saturado, tem gente que escreve só sobre isso, poemas assim tão que nem zumbi no facebook, no gargalo.

Tem uma carta do Alexei Bueno que apesar de meio exagerada é uma critica muito interessante, e do carpinejar também. Um segundo.

http://super.abril.com.br/cultura/nao-se-le-poesia-442564.shtml <- br="" l="" n="" o="" poesia="" por="" que="" se="">
http://observatoriodacritica.com.br/polemicas/1998-polemica-do-poeta-alexei-bueno/carta-aberta-aos-poetas-brasileiros-do-poeta-alexei-bueno-no-listas-de-poesia-versao-expandida/ Carta aberta aos poetas brasileiros do Alexei Bueno

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

FIGUEIREDO, Juvêncio de Araújo




NUM SONHO

- Lá vai, velas ao vento, o brigue Flor das Águas;
Lá vai, garbosamente, em procura do Norte.
E alegre chegará? Quem sabe lá das mágoas
da sua gente? E quem já lhe notou a sorte?

Mágoas! Quem nunca as teve? Eu, pelo menos, trago-as
desde o dia fatal em que, olhando a morte,
o meu noivo vagara aflito, envolvido nas fráguas,
dos bruscos vagalhões em terríveis corte;

Assim falava Rosa às queridas amigas...
E dentre o lindo rol das meigas raparigas,
rita pôs-se a cismar na vida de Lourenço.

Vira-o no mar profundo e revolto de um sonho,
nas angústias fatais de um naufrágio medonho,
a gritar e a acenar convulsivamente um lenço.


NA CRUZ
À alma torturada de Carlos de Faria

Quem pregou nessa cruz esses teus frágeis braços?
Quem te lançou à boca a esponja da tortura?
E sobre teu anseio a mudez dos espaços?
E diante dos teus pés uma planície escura?

Quem te rasgou do peito, a execrandos lançados,
todo esse coração onde a tua alma, pura,
sonhava a doce paz bendita dos regaços,
todo o meigo e efluvial clarão de uma ventura?

Ah! Quando o fundo olhar nesses tormentos cravo,
de tudo me recordo, e essas tristezas cavo,
como quem cava o chão frio de um cemitério.

Numa hora de repouso, e de recolhimento,
eu sei o que é a dor, de momento a momento,
passando sobre ti no seu carro funéreo.

AMARGA IRONIA

Eis-me junto de um túmulo fechado,
Onde reclino a fronte quase fria.
Quero escutar, digo eu, a litania
De um coração que aqui jaz enterrado.

Nisso, de dentro, parte um sonho magoado,
De uma profunda e vaga nostalgia.
Quem és? E o som responde-me: - Maria,
A tua filha, o teu amor sonhado!

Um frio, então, tragicamente horrendo,
Passa-me os ossos; e me vai roendo
As carnes que afinal se espedaçavam!

Mas fiquei por saber se o som tristonho
Era o dessa ovelinha, n’algum sonho,
Ou era o dos vermes que de mim zombavam!

ALMA ANTIGA

Todo o amaino que encontras nesta cama,
Nestes lençóis tão alvos e aromados,
Vem de uma clara e misteriosa chama
Que te segue, dos tempos já passados...

E não na vês, na delicada trama
Da sorte! Não na vês, nos teus cuidados!
Mas ei-la neste leito; e se derrama
Como por sobre o mar óleos sagrados...

É que, por certo, um dia, um leito deste
A quem, passando num lugar agreste,
Sentira as pernas bambas de fadiga.

E se buscares todos os segredos
Do teu passado, encontrarás os ledos
Florescimentos da tua alma antiga.


VOLTANDO À TERRA

Dize, por que razão me vens bater à porta,
altas horas da noite, assim de olhar tão triste,
que não sei como, ao vê-lo, a minha alma o suporta,
se há muito tempo já da terra sumiste?

E o que desejas tu, se há muito tempo és morta,
se, com certeza, ao lindo e largo céu subiste
como uma águia de luz, que as amplidões recorta,
e sobe, e por lá fica, e a paz do céu assiste?

E ela, os olhos volvendo, as mãos alevantando,
e abrindo a boca em flor e a cabeça meneando
pôs-se, então, a falar da nossa mocidade...

Disse que à terra vinha, unicamente, apenas,
para às suas unir as minhas grandes penas,
no consolo bendito e humano da saudade.

Cena Real

Rita fora tirar mariscos ao mar-grosso,
Para dar de comer aos pequeinos filhos
Que eram, do seu amor, os mais fortes cadilhos
Numa pobreza atroz, de sombras de arcabouço.

Prendeu um samburá à curva do pescoço,
E buscou do rochedo os últimos rastilhos,
Temendo o grande mar que, em cada vaga, trilhos
Abre a cada momento. E cada vaga é um poço.

Mas uma vaga veio; e mais outras... Montanhas
De água vieram... E treme o seu peito de estranhas,
Profundas emoções! Ei-la, agora, rolando

Por êsse mar revolto! (Ah! Tristíssima cena!)
Com um trapo da saia ela, cheia de pena,
Diz aos filhos adeus, e êstes choram, gritando!...

Suicida

Do bordo do lanchão pôs-se a fitar o espaço,
Que tão cheio de luz se achava! Quantos astros,
Quantos mundos rolando, enlaçados em nastros,
Da eterna vibração, no infinito compasso!

Quis estender ao céu o seu pequeno braço,
Mas recuou porque, muito distante, os rastros
Dêsses mundos de luz lhe dariam cansaços;
E êles não são, por certo, os santelmos mastros...

-Quem pudesse morrer! (Disse êle) e, nesse instante,
Olha as águas do mar e vê um céu faiscante;
E dentro dêsse céu, a gôndola da lua...

Arroja-se de chofre, então, ao mar e morre,
mas, por tôda a enseada, uma lenda ainda corre:
Dizem que a alma do Zé nas ânsias continua...

Ilusão

Sopra rijo o nordeste. Anselmo vem à popa
De um leve batelão. Vem, contente, a cantar...
Nem se lembra que está sobre as ondas do mar:
E, destemido, d'água o largo pano ensopa.

A leve embarcação embaraços não topa,
Metida a quilha ao vento... É um passaro a voar...
Rumo da praia irá, num seio descançar,
De bôjo para cima, embutido de estôpa.

Mas , junto ao Cambirela, onde há um precipício,
Que a tanta gente dá o eterno sacrifício
Da morte, ei-la emborcada, a leve embarcação.

E nunca mais ninguém viu o pobre Anselmo:
Menos quem o tanto amou, e, na luz do santelmo,
Parece vê-lo sempre... E crê nessa ilusão!

A Rendeira

Que lindas rendas faz a saudosa rendeira,
Que horas passa sentada ao correr do portal,
De onde escuta a carriça a chilrear na lareira,
E o canário a chilrear no flóreo laranjal!

Aprecio-lhe o gôsto e a sublime maneira
Com que faz tanta renda, assim, para o enxoval,
Vai casar-se na ermida alegre da ladeira,
E fêz, duma camisa, um lírio original.

No momento em que a vi, a tarde feiticieira
Era uns veios de luz piedosa, espiritual...
E chegava da pesca uma leve baleeira.

Houve, então, um rumor de beijos no quintal...
E em cada humilde e bom olhar dessa rendeira
Cantava a rima azul de um sonho virginal.




FIGUEIREDO, Juvêncio de Araújo. Poesias: edição comemorativa do centenário. Florianópolis: s.n, 1966. 311p.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Paisagem


Paisagem

Vejo monges nas estradas
estão no tempo ancorados,
postes que estranham o tráfego
presos... nas margens curvados.

Vejo, tempos ancorados
presos pelas paredes,
gárgulas nestas  janelas
rostos de inveja em sede.

Vejo meus velhos amigos,
em cada quarto são anelos
sob medos e memórias
sob traumas, pesadelos.

Vejo sonhos afogados
pelo asfalto e pelo afeto
retorcido e deformado
pelo gesto do  concreto.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Ansiedade




Ansiedade

Na janela largada aos humores do vento,
como as bandeiras d'alto dos morros
as cortinas
dançam presas em teu quarto
tal meninas
avoadas e com todo o rubor da natureza.

Presas, sofrendo
querendo voar
cobririam todas as promessas do Horizonte,
externo e terno e extenso e eterno co'os braços todos estendidos!

Querem elas a liberdade de se entregarem aos seus destinos,
filhotes de Nimbus
esperando seu bando
lembrar-se delas e numa tempestade
cobrindo a paisagem vir.
Elas sabem que o vento lhes ensinará a voar,
às duas.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Trovas (Céu, Durma, Conto)


Céu

Em um céu cinza a rotina
cinze o mundo em seu silêncio,
nada finda na surdina,
tudo foge de um consenso.

Eu vejo o mundo em céu aberto,
num gosto leve de alforria,
é ter um futuro descoberto
é ser vivo por porfia.


Conto:

Eu quero o conto perdido,
no silêncio na rotina,
um tema solto e iludido
na vergonha que confina.

Durma:

Durma, pois o mundo afora
vem dum sonho d'outra gente
logo tem a nossa hora,
de ser mundos diferentes.

sábado, 27 de abril de 2013

Anjos




Urban angels...
by ~GrandeOmbre

Anjos


Anjos dançam na calçada,
entre trapos indigentes.
Entre jogos e sujeiras,
tão contentes.

Versos feitos nas infâncias
feito berros de conjuro,
entre fetos acabados
em breu impuro.

Molham vultos retorcidos,
restos velhos os pivetes,
arranhando suas memórias
pelo Letes.

Poças mornas, se dissolvem
pela água nesse asfalto,
é só abismo se se olha
lá do alto.

E bem dançam nas calçadas,
como pássaros sedentos,
ladainhas pro infinito,
firmamento.

Onde eles se constringem,
num esforço natural,
conservando suas memórias
no jornal.