Folha de São Paulo, 07/04/2010
ELIO GASPARI
De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov
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Desde o século 19, o negro livre é uma encrenca para as nossas leis,
eu que o diga
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ILUSTRE SENADOR Demóstenes Torres,
Quem lhe escreve é Cazemiro, um Nagô atrevido. Faço-o porque li que o senhor, um senador, doutor em leis, sustenta que a escravidão brasileira foi uma instituição africana. Referindo-se aos 4 milhões de negros trazidos para o Brasil, vosmicê disse o seguinte: "Lamentavelmente, não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram..."
Vou lhe contar o meu caso. Eu cheguei ao Rio de Janeiro em julho de 1821 a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. O barco era português e o capitão, também. Fingia levar fumo para o Congo, mas foi buscar negros na Nigéria e, na volta, acabou capturado pela Marinha inglesa. Desde 1815, um tratado assinado por Portugal e Grã Bretanha proibia o tráfico de escravos pela linha do Equador.
Quando a Emília atracou no Rio, fomos identificados pelas marcas dos ferros. A minha, no peito, parecia um arabesco. Viramos "africanos livres". Livres? Não, o negro confiscado a um traficante era privatizado e concedido a um senhor, a quem deveria servir por 14 anos. O Félix Africano, resgatado em 1835, penou 27 anos. Doutor Demóstenes, essa lei era brasileira.
A turma da Emília trabalhou na iluminação das ruas e no Passeio Público. Algumas mulheres tornaram-se criadas. A gente se virou, senador. Havia senhores que compravam negros mortos, trocavam nossas identidades e não nos liberavam. As marcas a ferro nos ajudaram.
Alguns de nós conseguiram juntar dinheiro. Como estávamos sob a supervisão dos juízes ingleses, em 1836 compramos lugar num barco. Dos 354 que chegaram, talvez 60 retornaram à África. Como doutor em leis, vosmicê sabe que o Brasil se comprometeu a acabar com todo o tráfico em 1830. Entre 1831 e 1856 chegaram 760 mil negros, os confiscados devem ter sido 11 mil, ou 1,5%. Aquela propriedade da Marinha, na Marambaia, onde às vezes o presidente brasileiro descansa, era um viveiro de escravos contrabandeados. Não apenas a escravidão do Império era uma instituição brasileira, como assentava-se no ilícito, no contrabando.
Outro dia eu encontrei o Mahommah Baquaqua, mais conhecido nos Estados Unidos do que no Brasil. Ele foi capturado no Benin, lá por 1840,vendido a um padeiro em Pernambuco e revendido no Rio ao capitão do navio "Lembrança". Em 1847, o barco fez uma viagem ao porto de Nova York e lá o Baquaqua fugiu. Teve a proteção dos abolicionistas, razoável coberturajornalística, estudou e escreveu um livro contando sua história (inédito em português, imagine). Fazia tempo que eu queria perguntar ao Baquaqua por que, em suas memórias, não contou que, de acordo com as leis brasileiras, o seu cativeiro era ilegal. Ele diz que esqueceu, mas que, se tivesse lembrado, não faria a menor diferença.
Senador Demóstenes, a escravidão foi brasileira, assim como é brasileira uma certa dificuldade para lidar com os negros livres. Eu que o diga.
Axé,
Cazemiro
P.S.: Há uma referência ao caso da Emília no artigo "A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão", da professora Beatriz Gallotti Mamigonian, publicado recentemente na coletânea de ensaios "O Brasil Imperial". Que Xangô apresse a publicação de seu livro sobre os"africanos livres" no Brasil.
Sobre o caso: Aqui
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Navio Fantasma e Reciclagem

Navio Fantasmas
Nas névoas do sonho e do sono,
um navio mercante navega
nas vagas da raia das memórias.
E entre o que foi no abandono
pro fundo do mar que os carrega
aos cantos remotos da história,
o barco no tempo perdura
nas velhas missões lá de antanho,
dos tempos perdidos pra sempre.
Perdido num mar que fulgura
á mundos distantes e estranhos
de azul profundo e latente.
E o barco mercante permuta
no sumo dos mortos e d’outros
co’a forma dos vivos, matéria.
Carregam nos ombros a culpa
de um crime nefando, tal monstro
movido a dinheiro e miséria.
Levavam escravos aos montes
e em meio ao desespero e tortura
morriam no oceano os perdidos...
E poucos no instante da morte
diziam maldições na amargura
e muitos no fim são atendidos...
E certas figuras tomaram
o barco e fizeram cativos
os homens culpados por tudo,
E presos pra sempre ficaram,
no barco no fim, não mais vivos,
são homens sem rostos, são mudos.
E inda se vê o seu perfil
nos sonhos jogados ao mar,
é um barco distante na bruma.
Por causa de um ato tão vil,
lá estão, no destino a vagar
p’ra casa e p’ra terra nenhuma.
Nas névoas do sonho e do sono,
um barco mercante navega
nas vagas da raia das memórias.
E entre o que foi no abandono
o barco fantasmas carrega
um sopro perdido da história.
Reciclagem
Lá nas vagas que vão, a sua imagem
d’esse seu rosto sem massa e sem cor,
no esquecimento e pelo torpor,
vai se afundar no breu e na friagem.
E vêm as vagas, vão elas repor
os velhos erros e as mesmas roupagens.
Lá nas vagas que vão, co’a sua imagem
desse seu rosto sem massa e sem cor.
Vêm tantos outros das mesmas viagens,
rostos de areia que bem vão decompor.
Lá nas vagas que esvaem, reciclagem,
só mais um rosto que esvai sem valor
lá nas vagas que vão, co’a sua imagem.
Estou sem poder entrar na net e quando entro estou sem um pen drive, hoje foi um caso a parte.
Se conseguir o emprego que espero conseguir, vou por uma dsl em casa...
Até lá...
Vou estar ausente...
Nas névoas do sonho e do sono,
um navio mercante navega
nas vagas da raia das memórias.
E entre o que foi no abandono
pro fundo do mar que os carrega
aos cantos remotos da história,
o barco no tempo perdura
nas velhas missões lá de antanho,
dos tempos perdidos pra sempre.
Perdido num mar que fulgura
á mundos distantes e estranhos
de azul profundo e latente.
E o barco mercante permuta
no sumo dos mortos e d’outros
co’a forma dos vivos, matéria.
Carregam nos ombros a culpa
de um crime nefando, tal monstro
movido a dinheiro e miséria.
Levavam escravos aos montes
e em meio ao desespero e tortura
morriam no oceano os perdidos...
E poucos no instante da morte
diziam maldições na amargura
e muitos no fim são atendidos...
E certas figuras tomaram
o barco e fizeram cativos
os homens culpados por tudo,
E presos pra sempre ficaram,
no barco no fim, não mais vivos,
são homens sem rostos, são mudos.
E inda se vê o seu perfil
nos sonhos jogados ao mar,
é um barco distante na bruma.
Por causa de um ato tão vil,
lá estão, no destino a vagar
p’ra casa e p’ra terra nenhuma.
Nas névoas do sonho e do sono,
um barco mercante navega
nas vagas da raia das memórias.
E entre o que foi no abandono
o barco fantasmas carrega
um sopro perdido da história.
Reciclagem
Lá nas vagas que vão, a sua imagem
d’esse seu rosto sem massa e sem cor,
no esquecimento e pelo torpor,
vai se afundar no breu e na friagem.
E vêm as vagas, vão elas repor
os velhos erros e as mesmas roupagens.
Lá nas vagas que vão, co’a sua imagem
desse seu rosto sem massa e sem cor.
Vêm tantos outros das mesmas viagens,
rostos de areia que bem vão decompor.
Lá nas vagas que esvaem, reciclagem,
só mais um rosto que esvai sem valor
lá nas vagas que vão, co’a sua imagem.
Estou sem poder entrar na net e quando entro estou sem um pen drive, hoje foi um caso a parte.
Se conseguir o emprego que espero conseguir, vou por uma dsl em casa...
Até lá...
Vou estar ausente...
segunda-feira, 11 de maio de 2009
O Selvagem
O Selvagem
Numa praia fictícia
feita em sonhos e memórias
se vê cenas impossíveis
de felizes, de ilusórias
noites belas já perdidas
co’a menina d’outra história.
D’uma história acinzentada
pelas bocas da verdade
desse mundo que balança
para o mal e pra a bondade
e que a luva do destino
lhe roubou a felicidade.
E um medroso de garoto
dos mais tímidos bufões
um palhaço enamorado
pela bela das menções
no fim nada, no fim nada!
Só restou umas canções.
Pra garota, tal menina
do qual cursa ensino médio
e tem vida bem saudável,
e o garoto imerso em tédio
com sua vida tão enfadonha,
só via nela seu remédio.
E a menina se diverte
em suas redes, as sociais
em seu mundo tão distante
com as tais vidas, tão normais
que confunde o tal garoto
de viver noutros jornais.
O garoto com seu mundo,
tem seus livros e teorias
sem pessoas e personagens
só as estantes e a poesia
que só sabe viver sonhos
e sonhar com utopias...
E a menina com garotos,
tem amigos, tem amigas
tem cinemas e tem shows
com as noites e com vida
tendo os cortes, e os afagos
dias felizes, e feridas.
E o garoto, como sempre
bem distante solitário
ele apenas desejava,
tela perto, gram otário
este mundo não habitava
taciturno um solitário.
Amizades cultivou,
e em tal mundo conheceu
tantos outros, tantas chagas
ele tanto as aprendeu
com as noites e com vida
nessas terras se prendeu.
E a tal dama, conquistou
e em semanas foi feliz,
mas a mesma se afastou
em costume que condiz
de listinhas, de vitórias.
De verdade tão infeliz...
E o grande, gran bufão
para tudo, é um estranho
tem seu reino em seus escritos
não é nesse gram rebanho
mas porém, ele não aceita
ser um sóbrio em tal tamanho.
Mas sua mente inda é a mesma,
de seus tempos, tão recluso
fora menino selvagem
nesse mundo é um intruso.
De incertezas, sempre a parte
e com sigo? Tão confuso...
Hoje vive n’outras terras,
ralas redes, as sociais
sendo parte de matilhas
mas sua origem, seus quintais
sempre fora a solidão
nunca as vidas naturais.
Ele quando fecha os olhos
volta aos reinos, seu reinado
os seus mundos, a sua praia
onde espera do seu lado
a menina de seus sonhos,
p'ro selvagem, p'ro isolado...
Perdoem a gramática...
Esse poema é antigo, digamos, obrigado pela indicação e tudo mais mas vai demorar um tempo para eu postar algo novo, esse poema é de 2007, digamos, meu computador pifou e não posso nem salvar para ler nem talvez postar novos escritos.. Então por um tempo vou postar umas velharias, talvez vocês gostem, e algumas coisas novas também.
Esse poema escrevi nuam tacada só, é uma mistura de vários acontecimentos na minha vida com um toque bem MARCANTE de fantasia...
Abraços.
Essse selvagem talvez se valha, vendo agora, em relação ao selvagem também do admirável mundo novo, apesar de que eu escrevi esse poema bem antes de ler o livro.
Numa praia fictícia
feita em sonhos e memórias
se vê cenas impossíveis
de felizes, de ilusórias
noites belas já perdidas
co’a menina d’outra história.
D’uma história acinzentada
pelas bocas da verdade
desse mundo que balança
para o mal e pra a bondade
e que a luva do destino
lhe roubou a felicidade.
E um medroso de garoto
dos mais tímidos bufões
um palhaço enamorado
pela bela das menções
no fim nada, no fim nada!
Só restou umas canções.
Pra garota, tal menina
do qual cursa ensino médio
e tem vida bem saudável,
e o garoto imerso em tédio
com sua vida tão enfadonha,
só via nela seu remédio.
E a menina se diverte
em suas redes, as sociais
em seu mundo tão distante
com as tais vidas, tão normais
que confunde o tal garoto
de viver noutros jornais.
O garoto com seu mundo,
tem seus livros e teorias
sem pessoas e personagens
só as estantes e a poesia
que só sabe viver sonhos
e sonhar com utopias...
E a menina com garotos,
tem amigos, tem amigas
tem cinemas e tem shows
com as noites e com vida
tendo os cortes, e os afagos
dias felizes, e feridas.
E o garoto, como sempre
bem distante solitário
ele apenas desejava,
tela perto, gram otário
este mundo não habitava
taciturno um solitário.
Amizades cultivou,
e em tal mundo conheceu
tantos outros, tantas chagas
ele tanto as aprendeu
com as noites e com vida
nessas terras se prendeu.
E a tal dama, conquistou
e em semanas foi feliz,
mas a mesma se afastou
em costume que condiz
de listinhas, de vitórias.
De verdade tão infeliz...
E o grande, gran bufão
para tudo, é um estranho
tem seu reino em seus escritos
não é nesse gram rebanho
mas porém, ele não aceita
ser um sóbrio em tal tamanho.
Mas sua mente inda é a mesma,
de seus tempos, tão recluso
fora menino selvagem
nesse mundo é um intruso.
De incertezas, sempre a parte
e com sigo? Tão confuso...
Hoje vive n’outras terras,
ralas redes, as sociais
sendo parte de matilhas
mas sua origem, seus quintais
sempre fora a solidão
nunca as vidas naturais.
Ele quando fecha os olhos
volta aos reinos, seu reinado
os seus mundos, a sua praia
onde espera do seu lado
a menina de seus sonhos,
p'ro selvagem, p'ro isolado...
Perdoem a gramática...
Esse poema é antigo, digamos, obrigado pela indicação e tudo mais mas vai demorar um tempo para eu postar algo novo, esse poema é de 2007, digamos, meu computador pifou e não posso nem salvar para ler nem talvez postar novos escritos.. Então por um tempo vou postar umas velharias, talvez vocês gostem, e algumas coisas novas também.
Esse poema escrevi nuam tacada só, é uma mistura de vários acontecimentos na minha vida com um toque bem MARCANTE de fantasia...
Abraços.
Essse selvagem talvez se valha, vendo agora, em relação ao selvagem também do admirável mundo novo, apesar de que eu escrevi esse poema bem antes de ler o livro.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Varios Simbolistas

Alguns poetas da fase simbolista, ou que participaram dela. O simbolismo fora uma resposta ao parnasianismo, assim como o parnasianismo fora um resposta ao romantismo, apesar de que estes três em muitos autores andam juntos, como em Cruz e Sousa, parnaso-simbolista por exemplo, ou Luiz Delfino que passou pelas três fases. Olavo Bilac que muitas vezes andou pelo romantismo e pelo simbolismo também. Dizer que um escritor, por exemplo Cruz e Sousa é apenas Simbolista ou Parnaso, ou cuspir em toda a obra de Olavo Bilac (como muitos fazem) por causa dele ter feito parte do movimento parnasiano é digamos, estupidez! O que vale é a obra em si do autor e classificar alguém só pelo movimento que fez parte é bobagem. No simbolismo se vê muita tendencia ao modernismo, além do quê, o verso livre começou foi no simbolismo. E muitos modernistas como Drummond e Manuel Bandeira fizeram sonetos com um rigor técnico muito equivalente aos parnasos.
O meu concelho é, estudar a literatura indo além dos preconceitos que se aprende na cartilha do MAC. E ler mais a literatura inclusive a poesia nacional, pois na poesia não se lê o poeta estrangeiro em português, se lê o poeta tradutor escrevendo uma versão da idéia do poeta. Logo eu prefiro as edições bilíngües... Acho que todos preferem.
Mas bem voltando ao assunto, poetas nacionais da fase simbolista, sendo que se pode ver: Idéias em comum mas eles não são as mesmas coisas. Pois cada escritor é único.
Castro Meneses (1883 - 1920)
Cruz e Sousa
Vieste como o cansim dos areais africanos,
Ébrio ainda do sol que requeima o deserto,
Tentar, em pleno espaço, os vôos sôbre-humanos
Dos anjos e lutar de peito descoberto.
Vieste da solidão dos tormentos insanos
À procura da luz de um grande sonho incerto,
Tendo por voz amiga o clamor dos ocenaos
E por tenta o alto céu sôbre tua fronte aberto.
Rebramiu sôbre ti um anátema eterno.
Mas, indômito e só, velho titã glorioso,
Transpuseste, sorrindo, os círculos do Inferno...
E, esboçando na sombra um ríctus mais tristonho,
Ficaste, como um deus, vencido e silencioso,
Emparedado, enfim, dentro do próprio sonho...
José de Abreu Albano (1882 - 1923)
Cantiga 1
Nestes sombrios recantos,
Nestes saudosos retiros
Desliza um rio de prantos
E corre um ar de suspiros.
Volta
Tenho na alma dois moinhos,
Um é de agua, outro é de vento;
Ambos juntos e vizinhos,
Estão sempre em movimento.
E giros tantos e tantos
E tantos e tantos giros
Dão ao primeiro os meus prantos
E ao segundo os meus suspiros.
Álvaro Moreyra (1888-1964)
Lenda
"Não colhas essas rosas.
As rosas,
Irmãs na terra das estrêlas,
São mais lindas nos olhos que na mão,
Contenta-te com vê-las,
Deixa-as na haste,
Côr de púrpura e ouro,
Se as colhêres, as rosas morrerão"
Não quis ouvir o teu agouro.
Colhi tôdas as rosas que nasceram
Nos caminhos por onde me levaste.
E as rosas não morreram...
Epitáfio
Acreditei na vida. E a vida em mim. Depois
Desandamos a rir de nós ambos os dois...
Eduardo Guimaraens (1892 - 1928)
Embalo Fúnebre
Sob os ciprestes,
Dormem os mortos.
Dormem os mortos
À luz da lua.
Pálida lua,
Gélida lua!
Soluça a bôca
Do que ainda vive.
Oram mãos postas
Pelos que dormem
(Silêncio!) o sono
Da terra, eterno.
De bôca em bôca,
Lúgubremente,
Passam os réquiens
Pelos que dormem
Sob os ciprestes.
Vaga a saudade
Pelo siêncio
Da noite fria.
Oram mãos postas
Por quem não vive.
Pálida lua,
Gélida lua!
Vê: Também morto,
Sinto o meu sonho!
Ora por êle,
Pede por êle.
Noite sem astros,
Ora por êle.
Inocência
Inocência das cousas. Pura
Suavidade
Da alva que surge. Paz, frescura,
Símplicidade!
Nitidez do orvalho. Profundo
Céu. Ri-se a aurora...
Milagre. Dir-se-ia que o mundo
Nasceu agora!
Marcelo Gama (1878-1915)
Chuva de Estrelas
Li uma vez em páginas antigas
Que se uma estrêla cai do céu clemente,
Concede tudo o que lhe pede a gente.
Como as estrêlas são nossas amigas!
Por isso agora, insone e sem fadigas,
Fito os céus tôda a noite atentamente.
Chovem estrêlas... E eu: - "Astro fulgente,
Que que eterno o nosso amor predigas!
- Faze-me bom! Conserva-lhe a doçura!
- Estrêla, dá-nos paz! serenidade!
- Que a nossa filha seja linda e pura!"
Doiradas ambições! Como dize-las,
Se elas são tantas?! Deus, por pieade,
Manda que caiam tôdas as estrêlas!
Onestaldo de Pennafort (1902 - ?)
Chuva
A chuva entorna na paisagem calma
Uma indolência de abandono e sono
Paisagem triste como a de minha alma...
A chuva é um longo sono de abandono...
Olho atravéz do espelho da vidraça.
Dorme o jardim sob soluços d'água.
Na rua, alguém cantarolando passa,
Cantarolando a minha própria mágoa.
Quem será êsse vulto que se apossa
Da firme dor que em minha vida existe,
Para cantá-la assim num ar de troça,
De uma maneira que me põe mais triste?
E olho através do espelho da vidraça:
Dorme o jadrim sob os soluços d'água.
Na rua adormecida ninguém passa.
A chuva canta a minha própria mágoa.
Araújo Figueredo
Num Sonho
- Lá vai, velas ao vento, o brique Flor das Águas;
Lá vai, garbosamente, em procura do Norte.
E alegre chegara? Quem sabe lá das magoas
Da sua gente? E quem já lhe notou a sorte?
"Mágoas! Quem nunca as teve? Eu, pelo menos, trago-as
Desde o dia fatal em que, olhando a morte,
O meu noivo vagara aflito, envolvido nas fráguas,
Dos bruscos vagalhões em terrivel coorte:
Assim falava Rosa às queridas amigas...
E dentre o lindo rol de meigas raparigas,
Rita pôs-se a cismar na vida do Lourenço.
Vira-o no mar profundo e revôlto de um sonho,
Nas angústias fatais de um naufrágio medonho,
A gritar e a acenar convulsamente um lenço.
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segunda-feira, 2 de março de 2009
Bruxas e Frances

As bruxas daqui, são bruxas versões mais fantásticas e monstruosas, diferente da convencional anglo saxã, que insistem colocar como a nossa. Um amigo me contou, pois eu sou de fora da cidade, natural de São Paulo mas criado aqui, de que as bruxas, foram assimiladas também as prostitutas do local, que andavam seminuas berrando descaradamente os seus preços enquanto andavam de cavalo em certas regiões, a noite. Além de muitas histórias sobrenaturais, como risos no meio da noite, risos animalescos, e pessoas metamorfas, mariposas que sugam o sangue de crianças e coisas do gênero.
Rodrigo de Haro – Amigo da Labareda – 1991 – Pag. 19
Bruxas
Tormenta das bruxas na cozinha
cozinha das bruxas
na tormenta...
Quem as deslinda?
Ao carnaval do píncaro
na sombra
acodem enlaçadas
mas sozinhas
as filhas pressurosas
do absinto.
Que sementes esmagam
silenciosas? Que naufrágios
programam soleares?
Dedos cantantes on-
dulantes sábias vão
cozendo de verbenas sangues
na mesa corcunda
que fogareiros
cavalgam.
Quem sozinho as deslinda?
Que enumera tríplice
as alimárias
e os vestígios nas cinzas?
São as bruxas da cozinha
na tormenta.
Vinte Luas
Sobre a saga de Isomerick
primeiro carijó a visitar a frança, tendo por promessa ir ao local para aprender coisas como a escrita e a pólvora, porém goneville não conseguiu cumprir a promessa e levar ele de volta, dando apara ele então uma vida digna, títulos e um casamento. é o segundo relato das terras brasileiras, quem tiver interesse dêem uma lida no livro homônimo "vinte luas".
Vinte Luas
São vinte luas o prometido,
nem sei se estão mais me esperando
não sei se caso eu cá, voltando
pra lá, serei reconhecido.
Nem sei se estão se relembrando,
de mim ou estão já falecidos,
são vinte luas o prometido,
nem sei se estão mais me esperando
Minha missão, tudo aprendido,
e as vezes sonho recordando,
a minha infância, mas cá retido
nos anos tantos, vão passando
das vinte luas, o prometido...
Marcel Angelo
Resenha do livro:
Em 1503, o comerciante francês Paulmier de Gonneville parte numa viagem em busca das "belas riquezas das Índias". Após zarpar do porto de Honfleur, na Normandia, sua nau desce o Atlântico ao largo da África e perde a rota. Em janeiro do ano seguinte, o comerciante aporta em terras desconhecidas: sabe-se hoje que ele se encontrava no litoral de Santa Catarina. Durante seis meses, Gonneville convive com os índios carijós. Ao voltar para a França, leva o filho do cacique, prometendo devolvê-lo no prazo de vinte luas. Se cumpre ou não a promessa, este é apenas um dos lances romanescos saborosamente narrados por Leyla Perrone-Moisés nesta particularíssima história de "descoberta" do Brasil.
Título: Livro - Vinte Luas
Subtítulo: VIAGEM DE PAULMIER DE GONNEVILLE AO BRASIL: 1503-
Autor: Leyla Perrone-Moises
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Sonetos de “Praias de Minha Terra” - Araújo Figueredo
Sonetos de “Praias de Minha Terra” - Araújo Figueredo
Cena Real
Rita fora tirar mariscos ao mar-grosso,
Para dar de comer aos pequeinos filhos
Que eram, do seu amor, os mais fortes cadilhos
Numa pobreza atroz, de sombras de arcabouço.
Prendeu um samburá à curva do pescoço,
E buscou do rochedo os últimos rastilhos,
Temendo o grande mar que, em cada vaga, trilhos
Abre a cada momento. E cada vaga é um poço.
Mas uma vaga veio; e mais outras... Montanhas
De água vieram... E treme o seu peito de estranhas,
Profundas emoções! Ei-la, agora, rolando
Por êsse mar revolto! (Ah! Tristíssima cena!)
Com um trapo da saia ela, cheia de pena,
Diz aos filhos adeus, e êstes choram, gritando!...
Suicida
Do bordo do lanchão pôs-se a fitar o espaço,
Que tão cheio de luz se achava! Quantos astros,
Quantos mundos rolando, enlaçados em nastros,
Da eterna vibração, no infinito compasso!
Quis estender ao céu o seu pequeno braço,
Mas recuou porque, muito distante, os rastros
Dêsses mundos de luz lhe dariam cansaços;
E êles não são, por certo, os santelmos mastros...
-Quem pudesse morrer! (Disse êle) e, nesse instante,
Olha as águas do mar e vê um céu faiscante;
E dentro dêsse céu, a gôndola da lua...
Arroja-se de chofre, então, ao mar e morre,
mas, por tôda a enseada, uma lenda ainda corre:
Dizem que a alma do Zé nas ânsias continua...
Ilusão
Sopra rijo o nordeste. Anselmo vem à popa
De um leve batelão. Vem, contente, a cantar...
Nem se lembra que está sobre as ondas do mar:
E, destemido, d'água o largo pano ensopa.
A leve embarcação embaraços não topa,
Metida a quilha ao vento... É um passaro a voar...
Rumo da praia irá, num seio descançar,
De bôjo para cima, embutido de estôpa.
Mas , junto ao Cambirela, onde há um precipício,
Que a tanta gente dá o eterno sacrifício
Da morte, ei-la emborcada, a leve embarcação.
E nunca mais ninguém viu o pobre Anselmo:
Menos quem o tanto amou, e, na luz do santelmo,
Parece vê-lo sempre... E crê nessa ilusão!
A Rendeira
Que lindas rendas faz a saudosa rendeira,
Que horas passa sentada ao correr do portal,
De onde escuta a carriça a chilrear na lareira,
E o canário a chilrear no flóreo laranjal!
Aprecio-lhe o gôsto e a sublime maneira
Com que faz tanta renda, assim, para o enxoval,
Vai casar-se na ermida alegre da ladeira,
E fêz, duma camisa, um lírio original.
No momento em que a vi, a tarde feiticieira
Era uns veios de luz piedosa, espiritual...
E chegava da pesca uma leve baleeira.
Houve, então, um rumor de beijos no quintal...
E em cada humilde e bom olhar dessa rendeira
Cantava a rima azul de um sonho virginal.
Sonetos tirados do livro “Praias de Minha Terra” de Araújo Figueredo
Hoje se tem apenas, talvez uma rua acho... E alguns centros Espiritas com o nome dele, creio eu que além de poeta de vanguarda do simbolismo aqui em Desterro e no Brasil, amigo de Cruz e Souza, fora também um dos principais nome, na epoca, do Espiritismo aqui na ilha. Dizendo até que ele fora médiun, o que não posso dizer realmente, mas lendo alguns sonetos dele, pode-se levar-se a essa idéia.
Na epoca de Othon D'eça, de acordo com o livro”Homens e Algas” deste autor, não me lembro bem em qual cemitério em que fora enterrado, que seescuta ainda alguma voz a cantar no local, do qual ninguém sabe de onde veem, se mesclando com a paisagem, voz que atribuem ao poeta. O imortal Araújo Figueredo, uns dos maiores poetas da Ilha, que cantou sobre e para a Ilha, gravando então a memória de um tempo que já se fora em quase toda parte da ilha. Onde o mar não era um amiguinho de surfistas e turistas. De origem simples fora ele. Logo, como se pode ver, não é de se admirar que não se tenha edições novas dele, e que ele esteja se esvanecendo do conhecimento popular, pois, como tantos outros, ele mostra uma ilha que muita gente hoje em dia se preucupa em maquiar. Pois deve sobressair a imagem de uma ilha de veraneio bonita, com belos coqueiros e verão o ano inteiro. Não o que ela realmente é, uma Ilha de Mistérios, de História e de Tempestades.
Cena Real
Rita fora tirar mariscos ao mar-grosso,
Para dar de comer aos pequeinos filhos
Que eram, do seu amor, os mais fortes cadilhos
Numa pobreza atroz, de sombras de arcabouço.
Prendeu um samburá à curva do pescoço,
E buscou do rochedo os últimos rastilhos,
Temendo o grande mar que, em cada vaga, trilhos
Abre a cada momento. E cada vaga é um poço.
Mas uma vaga veio; e mais outras... Montanhas
De água vieram... E treme o seu peito de estranhas,
Profundas emoções! Ei-la, agora, rolando
Por êsse mar revolto! (Ah! Tristíssima cena!)
Com um trapo da saia ela, cheia de pena,
Diz aos filhos adeus, e êstes choram, gritando!...
Suicida
Do bordo do lanchão pôs-se a fitar o espaço,
Que tão cheio de luz se achava! Quantos astros,
Quantos mundos rolando, enlaçados em nastros,
Da eterna vibração, no infinito compasso!
Quis estender ao céu o seu pequeno braço,
Mas recuou porque, muito distante, os rastros
Dêsses mundos de luz lhe dariam cansaços;
E êles não são, por certo, os santelmos mastros...
-Quem pudesse morrer! (Disse êle) e, nesse instante,
Olha as águas do mar e vê um céu faiscante;
E dentro dêsse céu, a gôndola da lua...
Arroja-se de chofre, então, ao mar e morre,
mas, por tôda a enseada, uma lenda ainda corre:
Dizem que a alma do Zé nas ânsias continua...
Ilusão
Sopra rijo o nordeste. Anselmo vem à popa
De um leve batelão. Vem, contente, a cantar...
Nem se lembra que está sobre as ondas do mar:
E, destemido, d'água o largo pano ensopa.
A leve embarcação embaraços não topa,
Metida a quilha ao vento... É um passaro a voar...
Rumo da praia irá, num seio descançar,
De bôjo para cima, embutido de estôpa.
Mas , junto ao Cambirela, onde há um precipício,
Que a tanta gente dá o eterno sacrifício
Da morte, ei-la emborcada, a leve embarcação.
E nunca mais ninguém viu o pobre Anselmo:
Menos quem o tanto amou, e, na luz do santelmo,
Parece vê-lo sempre... E crê nessa ilusão!
A Rendeira
Que lindas rendas faz a saudosa rendeira,
Que horas passa sentada ao correr do portal,
De onde escuta a carriça a chilrear na lareira,
E o canário a chilrear no flóreo laranjal!
Aprecio-lhe o gôsto e a sublime maneira
Com que faz tanta renda, assim, para o enxoval,
Vai casar-se na ermida alegre da ladeira,
E fêz, duma camisa, um lírio original.
No momento em que a vi, a tarde feiticieira
Era uns veios de luz piedosa, espiritual...
E chegava da pesca uma leve baleeira.
Houve, então, um rumor de beijos no quintal...
E em cada humilde e bom olhar dessa rendeira
Cantava a rima azul de um sonho virginal.
Sonetos tirados do livro “Praias de Minha Terra” de Araújo Figueredo
Hoje se tem apenas, talvez uma rua acho... E alguns centros Espiritas com o nome dele, creio eu que além de poeta de vanguarda do simbolismo aqui em Desterro e no Brasil, amigo de Cruz e Souza, fora também um dos principais nome, na epoca, do Espiritismo aqui na ilha. Dizendo até que ele fora médiun, o que não posso dizer realmente, mas lendo alguns sonetos dele, pode-se levar-se a essa idéia.
Na epoca de Othon D'eça, de acordo com o livro”Homens e Algas” deste autor, não me lembro bem em qual cemitério em que fora enterrado, que seescuta ainda alguma voz a cantar no local, do qual ninguém sabe de onde veem, se mesclando com a paisagem, voz que atribuem ao poeta. O imortal Araújo Figueredo, uns dos maiores poetas da Ilha, que cantou sobre e para a Ilha, gravando então a memória de um tempo que já se fora em quase toda parte da ilha. Onde o mar não era um amiguinho de surfistas e turistas. De origem simples fora ele. Logo, como se pode ver, não é de se admirar que não se tenha edições novas dele, e que ele esteja se esvanecendo do conhecimento popular, pois, como tantos outros, ele mostra uma ilha que muita gente hoje em dia se preucupa em maquiar. Pois deve sobressair a imagem de uma ilha de veraneio bonita, com belos coqueiros e verão o ano inteiro. Não o que ela realmente é, uma Ilha de Mistérios, de História e de Tempestades.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Livro Fechado de Oswaldo Cabral - Alcides Buss e sobre a revista Pantanal, e a Biblioteca Nacional
Livro Fechado de Oswaldo Cabral
A velha Desterro emerge
nas ruas da nova cidade.
Hercílio Luz,
Gama D'eça,
Dias Velho...
A vida recomeça!
Ninguém a vê (mas
eretas figuras se aguçam
à espreita de antigos navios
ancorados na tarde.
Furtivos, trocam olhares.
Depois, sob o manto
da noite, algo cansados,
penetram em silêncio
nas linhas da história).
Alcides Buss
Professor da Ufsc, e poeta.
Tirado da última pagina da revista Pantanal.
Ano VII – Nº 16
Agosto de 1987
Estou também, na verdade folheando e tirando coisas de meu interesse, não necessariamente lendo, o livro, A Nossa Senhora do Desterro 2: Memória, de Oswaldo Rodrigues Cabral. Do qual, pelo pouco que folheei, encontrei verdadeiras preciosidades sobre a história dessa ilha, personagens e casos que dariam boas histórias, além dos casos clássicos conhecidos.
Sobre essa revista Pantanal, pois bem, eu estava trabalhando como voluntário na Biblioteca Livre do Campeche, Bilica. Apareceu lá um homem que disse que ia fazer uma doação, logo fora aceito, é claro, e ele apenas deixou lá, sem dar tempo de ser identificado, como deveria, para o nome dele ficar lá... Acredito eu, ou fora dito o nome... Na verdade acho que fora dito o nome. Ou fora outro?Foram duas doações no dia...
Essa revista, pela data e pelo conteúdo achei deveras interessante, mais por mostrar uma parte da nossa história e nomes que talvez eu visse em livros ou não. Fiquei com medo dele ir para a reciclagem, e pedi se podia ficar com ele, de uma forma de dizer meio travada, é claro, porém acabei ficando.
Eu li a maioria dos contos nessa revista e nenhum deles eu reprovaria, muito bons aliás, fora dos chavões convencionais. Dentre eles o primeiro que eu li me causou maior impacto, que fora “Não foi bem assim...” de Ademir Neves, fantástico, Trabalho Premiado no 20º concurso internacional de Los Angeles.
Essas revistas, por desconhecimento, muitas vezes acabam parando na reciclagem ou em gavetas esquecidas. Mas elas, para mim, apontam com mais precisão um período de nossa história e memória do que muitos livros sobre o assunto.
É fantástico imaginar, que muitas dessas revistas ou folhetos independentes possam estar em algum sebo ou biblioteca, assim, desavisado em meio a tanto livros, fora dos registros... Talvez um daqueles folhetos à atriz Julieta dos Santos, escrito pelos principais nomes do Simbolismo de Desterro, talvez quem sabe, esteja em alguma gaveta perdida por ae, embaixo do assoalho de uns daqueles casarões... É de certa forma reconfortante imaginar isso... Como os tesouros e seres sobrenaturais nos livros que eu lia quando pequeno.
Mas medo eu tenho, de que muitos profissionais despreparados ou preconceituosos acabem se desfazendo desses exemplares, enquanto invejam um grupo de bibliotecários na Inglaterra que acharam manuscritos de Byron em um livro...
Foi fantástico também quando eu soube por meio de minha ex-namorada da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e dessa “sobrenatural” lei federal do ano de 1907, até hoje em vigor, que criou a obrigatoriedade de se remeter a BN um exemplar de qualquer publicação feita no Brasil. Lei do Depósito Legal... Esse tesouro deve ser desconhecido por uma enorme parcela da população, sendo, no fim das contas, um dos maiores tesouros de nosso povo. De nós. É a garantia, de todo escritor desse pais, de deixar um legado, mesmo que singelo, para o futuro. Talvez, se Deus quiser, um exemplar de meus futuros livros, dentre eles As Legiões, e Carrossel, acabem lá, assim, pelo menos alguma coisa valeu apena. Mesmo no meio de um numero gigantesco de outros autores...
Pelo menos,
em algum lugar,
eu tenho um pouco de esperança de que sejam guardados...
A velha Desterro emerge
nas ruas da nova cidade.
Hercílio Luz,
Gama D'eça,
Dias Velho...
A vida recomeça!
Ninguém a vê (mas
eretas figuras se aguçam
à espreita de antigos navios
ancorados na tarde.
Furtivos, trocam olhares.
Depois, sob o manto
da noite, algo cansados,
penetram em silêncio
nas linhas da história).
Alcides Buss
Professor da Ufsc, e poeta.
Tirado da última pagina da revista Pantanal.
Ano VII – Nº 16
Agosto de 1987
Estou também, na verdade folheando e tirando coisas de meu interesse, não necessariamente lendo, o livro, A Nossa Senhora do Desterro 2: Memória, de Oswaldo Rodrigues Cabral. Do qual, pelo pouco que folheei, encontrei verdadeiras preciosidades sobre a história dessa ilha, personagens e casos que dariam boas histórias, além dos casos clássicos conhecidos.
Sobre essa revista Pantanal, pois bem, eu estava trabalhando como voluntário na Biblioteca Livre do Campeche, Bilica. Apareceu lá um homem que disse que ia fazer uma doação, logo fora aceito, é claro, e ele apenas deixou lá, sem dar tempo de ser identificado, como deveria, para o nome dele ficar lá... Acredito eu, ou fora dito o nome... Na verdade acho que fora dito o nome. Ou fora outro?Foram duas doações no dia...
Essa revista, pela data e pelo conteúdo achei deveras interessante, mais por mostrar uma parte da nossa história e nomes que talvez eu visse em livros ou não. Fiquei com medo dele ir para a reciclagem, e pedi se podia ficar com ele, de uma forma de dizer meio travada, é claro, porém acabei ficando.
Eu li a maioria dos contos nessa revista e nenhum deles eu reprovaria, muito bons aliás, fora dos chavões convencionais. Dentre eles o primeiro que eu li me causou maior impacto, que fora “Não foi bem assim...” de Ademir Neves, fantástico, Trabalho Premiado no 20º concurso internacional de Los Angeles.
Essas revistas, por desconhecimento, muitas vezes acabam parando na reciclagem ou em gavetas esquecidas. Mas elas, para mim, apontam com mais precisão um período de nossa história e memória do que muitos livros sobre o assunto.
É fantástico imaginar, que muitas dessas revistas ou folhetos independentes possam estar em algum sebo ou biblioteca, assim, desavisado em meio a tanto livros, fora dos registros... Talvez um daqueles folhetos à atriz Julieta dos Santos, escrito pelos principais nomes do Simbolismo de Desterro, talvez quem sabe, esteja em alguma gaveta perdida por ae, embaixo do assoalho de uns daqueles casarões... É de certa forma reconfortante imaginar isso... Como os tesouros e seres sobrenaturais nos livros que eu lia quando pequeno.
Mas medo eu tenho, de que muitos profissionais despreparados ou preconceituosos acabem se desfazendo desses exemplares, enquanto invejam um grupo de bibliotecários na Inglaterra que acharam manuscritos de Byron em um livro...
Foi fantástico também quando eu soube por meio de minha ex-namorada da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e dessa “sobrenatural” lei federal do ano de 1907, até hoje em vigor, que criou a obrigatoriedade de se remeter a BN um exemplar de qualquer publicação feita no Brasil. Lei do Depósito Legal... Esse tesouro deve ser desconhecido por uma enorme parcela da população, sendo, no fim das contas, um dos maiores tesouros de nosso povo. De nós. É a garantia, de todo escritor desse pais, de deixar um legado, mesmo que singelo, para o futuro. Talvez, se Deus quiser, um exemplar de meus futuros livros, dentre eles As Legiões, e Carrossel, acabem lá, assim, pelo menos alguma coisa valeu apena. Mesmo no meio de um numero gigantesco de outros autores...
Pelo menos,
em algum lugar,
eu tenho um pouco de esperança de que sejam guardados...
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